Tuesday, June 03, 2008

Idea

Estive me lembrando há pouco de uma situação que me ocorreu em uma de minhas viagens. Alguns meses atrás essa.

Depois de caminhar horas sob um sol QUENTE (perdoe-me o português) de uma floresta tropical em Waitako, numa região cheia de montanhas e templos, avistei a que no momento parecia ser a mais alta.
Era umas 16h da tarde e a água tinha acabado por volta do meio dia, quando precisei correr com a Bloody Mary (a mochila) de um grupo de nativos que, segundo o meu sexto sentido, queria algo mais de mim além de fotos de um estrangeiro - algo atípico por ali.

O sol no verão ali dura até as 22h. Quando as cenas descritas ocorreram, ele estava a pino e o suor já estava tornando a roupa encharcada. Fui subindo o lugar na ânsia de encontrar alguma casa de tapume ou coisa do tipo que pudesse me vender um pouco d'água. Acredite, eu trocaria meu carro por uma coca gelada naquele momento (ou minha bicicleta por uma garrafinha de água). Ainda mais porque é altamente recomendado não beber água de qualquer outra fonte naquelas regiões que não seja industrializada. Eu descobriria o porquê disse mais tarde.

Muito tempo se passou e para felicidade total desse que vos escreve (pelo menos naqueles instantes) encontrei um vilarejo com alguns casebres de uma espécie de palha marrom e algumas dúzias de crianças correndo atrás de uma bola oval (ali o esporte definitivamente não é o futebol. Leia-se rugby). Nem me interagir eu poderia; Eu não sabia uma regra daquele jogo e a bola não tinha cara de que fosse quicável (Michael Jordan, Kobe Bryant, does anyone know one of them?!)

Uma delas ao me ver escorado por perto, veio em minha direção e balbuciou palavras: "water, hã? water?" Meu deus! Que vontade pegá-la e enchê-la de beijos. Fiz um gesto consentindo com a cabeça e eis que ela e muitas outras foram correndo pra dentro das casas rindo e se estapeando pra ver quem chegava mais rápido.

Muitos segundos depois uma delas saiu - não me parecia a mesma com quem eu tinha falado antes - e dizendo "Is coming, wait", consenti novamente. A sede, que era insuportável, já estava com seus minutos contados.

Os meninos voltaram mais uma vez se pegando entre si e metade da minha desejadíssima água caiu no chão. Mas foi o suficiente para chegar em mim uma garrafa com cerca de 300ml. Era de metal enferrujado, a água estava saindo fumaça, totalmente amarela e acredite, parecia ter algumas coisas se mexendo dentro dela: Vibriões, parasitas, lactobacilos, platelmintos, nematelmintos, o caralho que seja.

Todos olhavam pra mim sem piscar e eu sem saber o que fazer com AQUILO. O filha da puta do sol parecia mais castigador do que nunca, a poeira já estava atrapalhando o crepúsculo devido à época do ano e meu corpo nem sequer respondia mais aos comandos que para qualquer ser vivo seria uma brincadeira.

Eu não sabia o que fazer! De uma forma ou de outra não poderia simplesmente descartar aquilo, jogar no chão e ficar por isso mesmo. Não sei o que esse gesto significaria para os pequenos. Alguns momentos se passaram até que fechei os olhos e num golpe súbito (de inteligência... ou não) joguei aquele mijo borbulhante no cabelo.

Disse
"thank you very much" e foi só o tempo de as crianças sorrirem pra mim, me virei pra trás com as costas encharcadas e continuei o meu destino rumo ao alto da montanha com o corpo incrivelmente restaurado (só não me perguntem o porquê!)

A.

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